Mostrar mensagens com a etiqueta crónicas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta crónicas. Mostrar todas as mensagens

A de Alarmismo

terça-feira, 25 de agosto de 2009

1 aforismos  

A avaliar pela enorme quantidade de atenção que lhe é prestada, a gripe A é uma doença incrivelmente nefasta que aniquilará grande parte da humanidade se não for tomada uma panóplia de precauções, desde ter um medo mortal de corrimões, maçanetas e afins, até lavar as mãos sempre que se volte a casa, não vá o H1N1 andar escondido nalguma unha. É tanto o pânico que até há gente a andar de máscara, como se o Ébola estivesse à solta.

Claro que eu não vou pôr-me a tremer que nem um despertador. A gripe A e a gripe normal são tão parecidas que são indistinguíveis na maioria dos casos. O tratamento é essencialmente o mesmo, o tempo de recuperação também e a taxa de mortalidade idem aspas.

Mesmo o facto de esta ser uma gripe fora de época significa pouco, dado que até agora a gripe A tem-se propagado a ritmo de lesma, precisamente porque o clima do Inverno é o mais propício à propagação da doença - tal como a gripe normal.

Sim, os grupos de risco estão, bem, em risco, mas isso é verdade para qualquer doença e a vacina para a gripe A está prestes a chegar para esses grupos (e para os paranóicos, naturalmente).

No meio disto tudo, as pessoas ficam com os cabelos em pé de cada vez que morre alguém de gripe A, ignorando o facto de que a gripe normal mata largos milhares (se calhar até milhões) de pessoas todo o santo ano. Parece que a gripe normal é tão normal que as pessoas se esquecem que ela existe.

Dado tudo isto, o meu conselho é que simplesmente continue a sua vida como normalmente. Vá a centros comerciais tantas vezes quantas desejar. Pode até ir beijando os corrimões de vez em quando. Ficará imune à gripe A sem o incómodo de ter que tomar a vacina. Claro, terá que tratar uma gripe, mas isso é um inconveniente menor.

Se já comprou álcool, pode sempre bebê-lo, o que certamente o deixará um pouco mais descontraído. As máscaras darão muito jeito ao seu grupo de teatro local, especialmente se este estiver a ensaiar uma peça sobre a gripe A.

Entretanto, eu vou comprar acções da Roche enquanto posso.

Derramou-se leite? Então derrame-se mais

terça-feira, 23 de junho de 2009

Como é do conhecimento público, recentemente o governo propôs (ou já foi aprovada, não sei, não me entendo) a extensão da escolaridade obrigatória para um período de 12 anos. Esta medida recebeu várias críticas pertinentes, embora alguns partidos da oposição tenham (surpreendentemente) aplaudido a acção, fazendo notar, todavia, que se tratava, provavelmente, de uma jogada eleitoralista - suposição que é, muito provavelmente, verdadeira.

Diz-se que este aumento da escolaridade obrigatória não mais é que uma manobra para melhorar as estatísticas, que põe em causa a qualidade do Ensino Secundário, que é ineficaz para atingir uma melhor formação dos alunos, e que mantém na escola pessoas que já deviam ter saído dela. Todas estas críticas - especialmente as duas últimas - são válidas. Concordo com todas.

Infelizmente, nenhuma delas vai suficientemente longe. Embora válidas, são também superficiais. O verdadeiro problema parece estar a escapar a toda a gente - o que é grave, visto que é o que mais necessita de uma solução.


As crianças são naturalmente curiosas. Não conheço ninguém que negasse tal afirmação - e por bons motivos: qualquer pessoa que tenha tido contacto com crianças sabe que elas fazem uma grande quantidade de perguntas sobre coisas que não conhecem. Também é, pelo que sei, consensual que esta atitude é saudável e bem-intencionada, e é óbvio que, se encorajada, pode levar a grandes aprendizagens e - presumindo que não há complicações pelo caminho - ao desenvolvimento pleno da criança.


Se encorajada.

E o problema é que não é encorajada. Pior, é desprezada e repisada, por intermédio de programas que tencionam definir exactamente aquilo que deve ser aprendido.

O actual sistema escolar assume, erradamente, que todos os jovens podem e devem aprender as mesmas coisas, da mesma maneira, ao mesmo ritmo e no mesmo lugar. Não sei quem teve esta ideia, mas diria que tem um QI abaixo de 10, pois este pressuposto é totalmente absurdo e qualquer pessoa que tenha tido contacto com jovens sabe isso. O resultado da aplicação deste tipo de princípios é que, previsivelmente, a vasta maioria dos "alunos" falha miseravelmente na escola.


Outro problema da escola é a sua tentativa de quantizar as capacidades e evolução dos jovens - algo que falha miseravelmente porque as características das pessoas são demasiado complexas para serem descritas por meia dúzia de números numa escala que só admite até 21 valores diferentes (e que se pretende aplicar a milhares de pessoas!). A piorar este problema está o facto de a escola só valorizar uma fracção ínfima das características da pessoa. Isto leva a que pessoas perfeitamente capazes sejam descartadas pelo sistema escolar por não possuírem as características que este último exige.


Como se tudo isto não fosse já suficiente, temos ainda o facto de que uma grande quantidade das "aprendizagens" feitas na escola são completamente inúteis na vida futura dos alunos (quem é que, aos 30 anos, se lembra de sequer um quinto do que "aprendeu" na escola?). Ou seja, todo o esforço que eles fazem (e não é pouco) ao longo de doze anos (segundo a nova proposta) é em vão. Isto é alarmante tendo em conta que a escola ocupa a maior parte do tempo daqueles que a frequentam.


Tudo isto é grave, mas se não fosse um pequeno factor, não seria nem de perto tão grave.

O factor chama-se - como o leitor provavelmente já terá adivinhado - escolaridade obrigatória.

Sim, leu bem. Os jovens a partir dos 6 anos são forçados a frequentar o erro crasso chamado "escola", acima descrito.

Uma coisa é cometer um erro. Outra é fazer com que toda a gente sofra as consequências. Estamos em presença da última situação.


Uma das justificações apresentadas para a existência da escolaridade obrigatória é a seguinte: é do interesse da sociedade evitar que se formem sociedades paralelas baseadas em convicções filosóficas alternativas e integrar as minorias na sociedade (fonte fraquinha, mas é o que há) . Soa bem, não soa?

Talvez soe. Mas a verdade é que se trata de uma desculpa patética. A expressão sociedades paralelas não tem significado, pois todos os grupos de pessoas interagem uns com os outros, inevitavelmente; para além de que o termo "paralelo" tem uma conotação marcadamente (e injustificadamente) negativa, como em "economia paralela".

Depois, é notória a intolerância demonstrada pelo autor desta frase, ao classificar todas as convicções minoritárias como perigosas. Este tipo de pensamento era bastante comum em membros do Partido Nazi. E eu que pensava que já estava extinto.

Por fim, a "integração" mencionada cheira a esturro. Quando o autor da frase se refere às minorias de uma forma tão negativa, é impossível ter confiança nele. Penso que um termo mais adequado seria "lavagem ao cérebro".


Mencionei atrás que a escola desperdiça muito do tempo daqueles que a frequentam. Isto seria praticamente irrelevante, não fosse a escolaridade obrigatória. Graças a esta, todos os jovens a partir dos 6 anos vêem o seu precioso tempo (e o tempo da juventude é particularmente precioso) gasto da forma mais fútil possível, durante um tempo variável que, hoje, é de 9 anos em Portugal. De facto, dado que a escola exige que o aluno se encontre no seu terreno durante muitas horas por dia, a escolaridade obrigatória assemelha-se a uma sentença prisional em part-time.

Quase uma década gasta em vão.

Infelizmente, as crianças que entram na escola não têm, geralmente, a capacidade de se aperceberem desta situação. Quando o conseguem fazer (se chegam a fazê-lo, o que é raro), tipicamente, já os estragos são monumentais.


Outra justificação utilizada para a escolaridade obrigatória é a seguinte: o jovem tem o dever de aprender e nada mais. Nada mais errado. A aprendizagem e a educação não devem excluir tudo o resto, sob quaisquer circunstâncias - pois toda a aprendizagem do mundo é inútil se não puder ser utilizada!


Apesar de tudo o que já disse, o que mais me indigna na escolaridade obrigatória é o desrespeito atroz perante a liberdade e independência dos jovens (e que é patente em muitas outras leis). O jovem que queira aprender a sério algo que não esteja coberto num programa escolar, aquele que prefira crescer de outra forma que não a imposta pelo estado, ou, até, aquele que queira trabalhar para ter uma vida independente sem ter que esperar anos e anos apenas por causa de uma restrição arbitrária (desejo que seria, provavelmente, tomado como absurdo), não tem opções. Está aprisionado, e para libertar-se, ou espera ou toma medidas drásticas.


Desde que penso sobre o assunto que se tornou claro, para mim, que a escolaridade obrigatória está a causar males incontáveis à juventude de Portugal e do mundo. Está a transformar algo nobre, importante e valioso - a educação e a aprendizaem - numa obrigação, numa sobrecarga que deve ser temporária. Quando isto acontece, é sinal de que alguma coisa está muito, muito mal.

Por isso, concluo dizendo que estou horrorizado com esta proposta extensão da escolaridade obrigatória. Já era um problema gravíssimo, e, ainda assim, tenciona-se agravá-lo. E não é só em Portugal.

Temo verdadeiramente pelo futuro da juventude.

Srª Fátima, de que cor é a sua roupa interior?

domingo, 12 de abril de 2009

0 aforismos  

in WEHAVEKAOSINTHEGARDEN


As funcionárias da Loja do Cidadão de Faro, inaugurada a 3 de Abril, foram proibidas de usar saias curtas, decotes, saltos altos, roupa interior escura, gangas e perfumes agressivos.


in Público (negrito adicionado por mim)


A notícia de anteontem não podia ter mais piada. Aliás, é das coisas com mais piada que ouvi nos últimos tempos.

Uma coisa que quero por já clara e que não estou a dizer que as referidas funcionárias devam atender os clientes com roupa dita "ousada". Como a MariaEduarda diz, e bem: "acho que se têm contacto com o público deviam ter uma farda qualquer. podia ser super simples, mas uma roupa que tivessem todas igual!". Ora, que mal têm os saltos altos? Que eu saiba, não expõem nada. E a parte das cuecas é verdadeiramente hilariante. As funcionárias da Loja do Cidadão com certeza não andam com elas à mostra. A não ser que tivessem saias transparentes, mas essas só aparecem nas exibições de moda. Tendo em conta que o Sócrates é considerado o sexto homem mais elegante do mundo (ou coisa semelhante), explica-se a existência de tal medida.

Isto preocupa-me. Não tanto pelos arzinhos do salazarismo que, alegadamente, andam por aí, mas sim pelo futuro estado do nosso país. Se o Sócrates pensa que Portugal é uma exibição de moda, então, um dia destes, pintam as passadeiras todas de vermelho. (O sangue que se espalha nelas todos os dias, por essa altura, já terá feito muito do trabalho.). O que colocaria o nosso país na linha da frente da inovação no que à sinalização rodoviária diz respeito, e nos tiraria a possibilidade de criticar o facto de sermos um país atrasado. Interessante.

Especialmente a forma como se passa de cuecas pretas a passadeiras vermelhas.

O estranho caso das leituras enjoatórias

domingo, 15 de fevereiro de 2009

0 aforismos  

Muitas vezes, criticam-me por defender ideias que não passam de mera utopia (Argumento que eu considero bastante questionável. Mais tarde falarei do assunto). Porém, aqui, o assunto tem tudo de prático e muito pouco de teórico.

Os Maias, de momento, estão parados a meio do capítulo XI, o que significa que tenho que ler mais sete capítulos e meio (umas poucas 350 páginas) até acabar aquilo. A ficha de leitura é no princípio de Março, o que significa que tenho cerca de meio mês para ler o livro.

Fosse este outro livro qualquer, um que eu tivesse, de facto, escolhido ler, esse tempo chegaria e sobraria para o efeito. Porém, não é esse o caso aqui. Eu nunca quis ler Os Maias. Ora, como eu já disse, é impossível estar motivado quando se faz algo à força – o que, aqui, significa que não só leio mais devagar, como leio menos de cada vez. O tamanho do livro (mais de 700 páginas) desencoraja ainda mais a leitura.

Pior, como eu prefiro ler livros em série, isto é, um de cada vez, até ler Os Maias não tenho oportunidade de ler mais nada. E isto é que me massacra a alma. Eu tenho uns quantos livros que já comprei há algum tempo, alguns talvez até no ano passado (um deles foi-me oferecido por escolha minha no Natal: A Viagem do Elefante de Saramago). Ainda não os li! Por que será? Por causa daquele livro maldito. Ora, isto já ilustra a completa estupidez que são as leituras obrigatórias. Senão vejamos:

  • Como todas as pessoas são diferentes, é altamente benéfico para elas seguirem os caminhos da sua preferência (ideia que não tem necessariamente de estar restrita às leituras);
  • Em pessoas da minha idade (incluindo eu mesmo) a imposição tende a causar aversão, o que vai contra até mesmo os objectivos da leitura obrigatória;
  • Como eu também já disse na minha crónica Ler menos também era capaz de ser boa ideia, há dois tipos de pessoas – as que lêem e as que não lêem: no fundo, estes dois tipos correspondem aos indivíduos que apreciam a leitura e aqueles que preferem outras actividades. Forçar os segundos a ler é inútil, atendendo ao ponto anterior, e pode levar a que a pessoa não queira, mais tarde, começar a ler, com base na sua experiência (Isto é apenas uma conjectura, e conheço casos de pessoas que, tendo lido um livro na escola, só gostaram dele mais tarde). Impor leituras a quem já lê só é prejudicial, sendo eu mesmo a prova viva desse facto. Tenho lido pouquíssimo ultimamente à custa daquele calhamaço de setecentas páginas e da vontade infinitesimal (e que continua a diminuir) que eu tenho de o ler. Ou seja, eu, na verdade, estou a ler menos do que leria se não tivesse este empecilho no caminho – e a ficar infeliz por isso. Quando ter um livro para ler faz com que nos sintamos mal, é sinal de que algo se passa de muito errado.

Mais triste ainda é saber que estes problemas poderiam até ser minorados grandemente com uma simples medida: limitar o tamanho das leituras obrigatórias a, digamos, umas 200 páginas. Pela minha experiência, mesmo na ausência de uma motivação, é possível ler um livro desses em poucos dias. Assim, pegava no livro, lia, fechava, e mesmo com glossário e biografia, rapidamente poderia partir para outro livro.

Dadas as nefastas consequências, torna-se cada vez mais difícil compreender por que diabo existe este tipo de leituras, e, especialmente, por que é que as pessoas continuam a insistir nelas mesmo quando chamadas à razão. Lamento estar a dizer isto de algumas dessas pessoas, mas, para ver a realidade fundamentada como eu a fundamentei e continuar a não a aceitar, é mesmo preciso ter uma grande falta de bom senso.

Bem, eu agora penso publicar tudo isto no blog, e aproveito para fazer um pequeno comentário. Esta situação já grassa há bastante tempo, e, desde a última vez que escrevi acerca do assunto, não foi resolvida. Normalmente, seria ligeiramente tolo estar a falar duas vezes do mesmo assunto – mas a gravidade da situação assim o exige, pelo que há que sacar da liberdade de expressão (que, felizmente, ainda temos) outra vez.

Assim sendo, nada mais me resta acrescentar do que a consequência última e mais recente de todo este descalabro. Tal é a indisposição que me provoca saber que poderia ter tido muito mais prazer a ler se tivesse lido os livros que escolhi, que já estou a ficar com bastante vontade de pôr o calhamaço na prateleira de vez e passar às leituras que, de facto, me enriquecem e me dão vontade de ler mais.

Ler mais. Engraçado... onde terei eu lido essa frase?

Ultraje!

domingo, 25 de janeiro de 2009

1 aforismos  

Hoje abri a minha caixa de correio electrónico e tinha um novo e-mail. O e-mail continha a cópia de uma notícia publicada no Jornal Público (para quem quiser consultar carregue aqui) intitulada: "GAVE confirma alteração no método de classificação dos exames nacionais".
Como aluno do 11º ano fiquei curioso para saber qual fora a fantástica medida que tinha sido tomada desta vez. Os meus olhos percorreram as letras à minha frente enquanto o meu dedo ia puxando o ecrã cada vez mais para baixo a fim de ler toda a notícia.
Primeiramente não fiquei incomodado com o título nem com as primeiras palavras, já não estava à espera de uma coisa muito boa. No entanto, ao continuar a ler a notícia deparei-me com uma situação preocupante para o futuro dos alunos.
Resumindo a notícia, as antigas oito opções de verdadeiro ou falso presentes nos exames nacionais, passarão a ser apenas quatro. A pontuação que lhes será atribuída passara de dez para cinco pontos. Os critérios de correcção passarão a dar zero pontos a quem errar apenas uma alínea.
Sim, esta foi a parte em que os meus olhos quase saíram do globo ocular. Então ao errar uma alínea de verdadeiro ou falso a questão ser-me-à cotada com zero pontos? Que justiça, que beleza, que decisões extraordinárias... Não consigo encontrar mais adjectivos para descrever a enormidade desta decisão (entenda-se que todos os adjectivos são para ser lidos com sentido irónico).
Deste modo, os alunos vão ficar com sérios problemas. Conhecem a expressão: "Ou é para tirar 20 ou não é!". Definitivamente estamos perante um caso desses. Ou tiramos a nota mais alta, ou então podemos dizer adeus à nota que queríamos alcançar, pois ela escapa-nos por entre os dedos e cai no poço mais profundo da realidade. Nós para a tentarmos agarrar vamos atrás dela e também caímos. É assim que as coisas se vão passar de agora em diante. Um autentico clima de nervosismo, insegurança e insucesso.
As notas vão descer e os alunos vão começar a estar ainda mais desmotivados.
Deixem-me dar uma ajudinha ao ministério na sua recente demanda: porque não implantam o antigo critério de tirar pontos a quem erra a escolha múltipla em vez de contar como zero? (frase que deve ser entendida como um género de gozo).
De uma forma geral, é desta forma que os alunos saem prejudicados nas provas de exame nacional. Mesmo que o aluno domine totalmente a matéria e que, por um qualquer motivo do destino, erre uma alínea fica prejudicado em tantos pontos quantos os que valem a questão.
E a todos deixo cumprimentos e boa sorte para o verdadeiro ou falso dos exames porque vão precisar!

Mortes na estrada: afinal vamos travar este drama ou não?

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

2 aforismos  

Ontem foi noticiada, na televisão, a morte de mais uma pessoa nas estradas portuguesas. A notícia, lamentavelmente, surgiu no rodapé, o lugar mais conspícuo possível do telejornal. Digo lamentavelmente porque pôr uma notícia destas em rodapé equivale a dizer que a morte de alguém por motivos tão estúpidos e recorrentes não é digna de nota.
Não culpo quem o fez, porém. A verdade é que noventa e nove por cento dos portugueses (e, quem sabe, estrangeiros também) estão tão habituados a que morram pessoas na estrada que isso já se tornou num axioma, e ninguém pensa que se trata de um problema que não basta diminuir, objectivo este que tem sido proclamado por todas as pessoas que alguma vez se dignaram a fazer alguma coisa sobre o assunto. É pena.
O slogan da conhecida campanha publicitária da Prevenção Rodoviária Portuguesa, "Mortes na estrada: vamos travar este drama", é, neste aspecto, bem ilustrativo daquilo que eu quero dizer. Pena que ninguém tome a palavra "travar" no seu verdadeiro sentido. O problema que temos em mão é de tal forma grave, que só estará verdadeiramente travado quando tiver deixado de existir.
Infelizmente, a prática obsta a que isto aconteça. "Travemos os nossos carros" não é uma atitude apelativa para quase ninguém - e, enquanto houver carros na estrada, haverá também mortes na estrada.
Dir-se-á, pois, que em tudo podem ocorrer acidentes. Não o nego! Apesar disso, não será preciso olhar muito longe para ver que, todos os dias, se fazem milhares sobre milhares de viagens de comboio, metro, eléctrico, de bicicleta, a pé, e por outros transportes que não o rodoviário. Todos esses meios estão sujeitos a acidentes, claro, mas... quantas vezes acontece isso? A resposta é, por muitas voltas que se dê à questão, muito menos. Não digo que, no total, não sejam também em número significativo, mas estão longe, bem longe, das proporções desproporcionadas que o caos rodoviário atingiu (e continua a atingir). Basta ver-se a frequência com que passam nas notícias acidentes rodoviários versus aquela com que aparecem acidentes de outros transportes quaisquer.
É completamente aberrante, não é? Pois é!
O cidadão comum apercebe-se disso? Não!
Mas devia!

Ler menos também era capaz de ser boa ideia

domingo, 28 de dezembro de 2008

2 aforismos  

Neste momento, tenho, em "lista de espera", uns quatro livros, à espera de serem lidos. Mas não estão a ser lidos. Estão ali, sentados em vários sítios do meu quarto, a apanhar pó. Dirão logo que eu sou daqueles tecno-viciados da nova geração que não lê um ponto final há dez anos. A verdade é que não sou. É que eu tenho mais do que só esses quatro livros, muito mais. E desses, apenas um (um!) tem a capa limpa. Adivinhem só qual é. Se responderam Os Maias, de Eça de Queirós, então acertaram.

Perguntarão alguns de imediato: que tenho eu contra esse livro? Ao que eu respondo: nada. O Eça escreve perfeitamente bem e a narrativa está óptima. E não tenho rigorosamente nada contra o escritor. O meu problema não é esse. O meu problema é alguma falta de motivação. Derivada do quê? Já explico.

Pois bem, a falta de motivação de que falo deve-se a isto: eu não leio este livro porque quero, leio-o à força (por muito que alguns críticos da minha posição o queiram negar). Ora, como qualquer pessoa minimamente inteligente sabe, é impossível estar motivado a fazer uma coisa que nos é imposta pela força. E aqui, dirão alguns: que interessa isso, se o livro, afinal de contas, é bom? E eu respondo: interessa, porque é preferível ler motivado e de vontade própria.

Olhemos não mais longe do que o objectivo das leituras contratuais (termo ligeiramente mais pomposo para "contrato de leitura"): incentivar os alunos a ler. Inútil. Existem dois tipos de alunos: os que lêem e os que não lêem. Os que lêem não precisam de ser obrigados a fazê-lo, e caso tal aconteça, só são prejudicados: quando lemos por vontade, estamos totalmente abertos às palavras do escritor, bebemo-las, e no final apreciámos o livro, tal como outros apreciam um bom vinho, enquanto que ao sermos forçados, bebemos as palavras, sim, mas a contragosto, de maneira que, por muito doces que elas sejam, fica sempre um travo amargo na boca, e a tristeza de não termos lido os livros que queríamos ter lido (que é a infeliz situação em que eu me encontro). Para mais, que importa se lemos Os Maias ou O Feiticeiro de Oz? Afinal de contas, são todos livros e não é por um ter sido escrito por alguém famoso ou ser considerado referência que tem mais importância que os outros. Todos eles nos proporcionam experiências, todos eles nos tocam, todos eles nos abrem as portas a novos mundos, novas realidades, novos pensamentos.

Os alunos que não lêem? Esses não lêem de qualquer maneira; tentar forçá-los não vai dar em nada. Por favor, parem de perder tempo com esses.

Finalizo esta crónica com um pedido àqueles que tiverem tempo para a ler: bebam as minhas palavras, e só depois de sentirem o seu sabor na totalidade, depois de terem compreendido o seu significado, as critiquem. A última coisa que eu quero ver acontecer é que as minhas palavras sejam recebidas com a intransigência autoritária e arrogante de um "porque sim".

As Realidades de um Blog

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

1 aforismos  

Nesta tarde em que o céu ficou escuro depressa, com as estrelas a brilhar, quais pirilampos colados a um fundo escuro, vim ao meu blog e deparei-me com uma situação que não acho correcta. O que é, afinal, um blog?
Um blog, a meu ver, é um lugar onde qualquer um pode desabafar, mostrar os seus problemas, expressar a sua opinião acerca disto e daquilo. Não é mais nem menos, do que um lugar onde todos podem ler e comentar aquilo que o autor escreve. No entanto, as regras da boa educação e do viver em sociedade, obrigam-nos a respeitar e a ser, de certa forma, bem educados naquilo que comentamos, nos argumentos que utilizamos.
Depois de um post ser publicado, foi analisado pelo seu autor muitas e muitas vezes, a fim de não transmitir nada para além da sua opinião, a fim de tentar criticar aquilo que está mal, ou até, a fim de procurar uma solução para o seu problema.
Aqueles que lerem o post poderão querer comentá-lo, e fazem muito bem em comentar, porque qualquer escritor gosta que comentem o seu trabalho, qualquer bom trabalhador gosta que comentem o seu trabalho ou que o avaliem.
No entanto, como já referi, é necessário fazê-lo de uma forma construtiva e educada.
Foi por situações relacionadas que decidi escrever este post e os meus dedos começaram a deslizar pelas teclas do computador, para tentar transmitir da melhor forma, a minha opinião.
Qualquer pessoa que entre num blog é porque quer lê-lo. Se ler e não gostar, terá de comentar o post negativamente, no entanto e a meu ver, de uma forma construtiva expressando a sua opinião e a sua indignação (se tal sentimento vier à tona) de forma educada.
Não esqueçamos a identificação da pessoa que comenta. É sempre importante mesmo que não se saiba de quem se trata. O autor do post ficará sensibilizado e agradecido pelo reparo feito e tentará explicar os seus motivos para a escrita do post.
De certa forma, é isto que deveria de ser um blog, e não um espaço onde se insulta e onde se protesta apenas porque se sente incluído nas palavras do autor do texto.
E o que tenho para dizer é o seguinte: num lugar como a Internet, ao qual todos podem ter acesso, não deveríamos tentar ser civilizados?
Quando é que vamos aprender a comentar e a argumentar de forma construtiva e bem educada?

O genocídio do bom português

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

1 aforismos  

Há algum tempo (quanto, exactamente, não sei) aprovou-se o novo acordo ortográfico. As mudanças na língua que este acordo apresenta são lamentáveis e, no meu entender, contribuem, apenas e só, para empobrecer o português, do qual a nossa pátria é indissociável.
Senão vejamos - o que se faz com este acordo (sim, escrevo com letra minúscula, porque não merece a honra da maiúscula) é retirar coisas. Retirar os agás, os cês, os acentos, os hífens. Pior, os resultados são totalmente ridículos. Quem é que quer escrever "istória"? Ou "oje"? Ou, pior, "orário"?
E as confusões que se geram? "Eu estava a pensar num fato.". Com o acordo ortográfico, isto tem um sentido duplo. Em português correcto as palavras fato e facto escrevem-se de maneiras diferentes. Como devem ser escritas. O governo anda a promover muito as Novas Oportunidades, o que tem muito que se lhe diga, de bom e de mau, mas está, e isso é incontestavelmente mau, a promover as Novas Ambiguidades.
É por tudo isto que este novo acordo ortográfico, é, na verdade, um tratado de genocídio muito bem disfarçado. Um genocídio de letras, de acentuação, de hifenização.
A única forma de pôr um travão a este massacre é continuar a escrever como agora. Porque esta atrocidade que se está a cometer contra a nossa língua só vai para a frente se nós quisermos.
Não deixemos a galinha da morte pôr os seus ovos na língua portuguesa. Porque ela não merece essa desfeita da nossa parte.

AE

domingo, 23 de novembro de 2008

 

Centenas e centenas de papeis impressos por uma luta desigual onde ganha a constituição da lista e não as suas propostas. Matam-se, esfolam-se e aleijam-se. É ridícula a maneira como cartazes e autocolantes são arrancados na esperança de iludir o eleitor. Meus caros, como eleitora digo-vos: o meu voto não foi alterado por a minha lista estar com um desfalque de trezentos cartazes arrancados e noventa autocolantes no lixo. Mas enfim, os selvagens (ou estudantes, como são chamados mais vulgarmente) reduzem-se aos seus actos mais primórdios da existência sapiencial e com raiva a transparecer pelos poros da pele, rasgam, riscam e pisam papeis.
São as semanas mais estúpidas de cada ano lectivo. São prometidos mundos e fundos e pouco acaba por realmente ser feito. Muitos estabelecimentos de ensino, apenas cingidos a uma lista, insistem em fazer campanha e gastar dinheiro em propaganda inútil que de uma maneira ou outra faz escassear o oxigénio. As paredes são forradas, as pessoas chateadas até ao desespero que nos leva a gritar "sim! eu voto na tua lista mas por amor de Deus deixa de falar da festa de final de ano e na semana em Lloret del mar" e os auxiliares de ensino descansam refastelados na cadeira que lhes pertence com direito a aquecedor de pés por saber que toda aquela papelada terá de ser limpa pela Lista vencedora.
O mais interessante deste acontecimento é de facto o contar de relações que acaba por acontecer. Ou até mesmo as festas em que pessoas (sim, a palavra foi retirada depois de horas e horas de atenção despropositada a um texto que mais não é que pura idiotice) se despem a troco de alguns votos que nem para a vitória chegam. Festas pagas em vão e o orgulho destruído por uma causa perdida.
Qual será o dia em que, desde pequenos, seremos ensinados a jogar limpo e a argumentar em vez de rasgar?